Sábado, assisti Flow (Straume), uma das animações sensação do ano de 2024. O filme produzido com recursos limitados, foi o primeiro da Letônia a ser indicado ao Oscar (*na verdade, dois*) e levou o Globo de Ouro de Melhor Animação. Além disso, o filme atraiu curiosidade por ser completamente renderizado no software de código aberto Blender e não conter nenhum diálogo, utilizando somente os barulhos dos animais. Como foi revelado que Flow (*esse acabou se tornando seu nome*) foi dublado por uma gata laranja, usarei o feminino para me referir à personagem na minha resenha.
Flow se passa em um lugar indefinido que parece ser o nosso mundo. Não há humanos e a gatinha cinza escuro Flow parece manter uma rotina de visitar a floresta em busca de alimentos e retornar para a casa onde viveu com seu humano, que parecia ser um escultor obcecado por gatos. Um dia, a água começa a subir muito rápido. Para se salvar, Flow tem que vencer seu medo d'água e acaba se juntando a um grupo de animais muito peculiar (*uma capivara gentil, um labrador que parece um tanto deslocado de sua matilha de cães violentos e traiçoeiros, um lêmure que coleciona coisas "bonitas" e uma ave secretária que foi expulsa de seu bando por defender a gatinha*). Eles não tem um destino certo, seu único desejo é sobreviver.
Flow é um filme simpático e que consegue colocar em tela bichos se comportando como bichos boa parte do tempo, porque, sim, há alguns breves momentos em que seus comportamentos acabam sendo excepcionais, por assim dizer. Vínculos entre animais de diferentes espécies não são incomuns, eles também podem demonstrar piedade, tristeza e outros sentimentos que muitos julgam serem humanos, mas não são. Agora, animais não pilotam barcos, não de forma consciente, como no filme. Olhando o grupo improvável de animais, eles formam uma espécie de Exército de Brancaleone no qual um grupo de solitários e/ou rejeitados precisam sobreviver, neste caso à água que parece que vai continuar subindo indefinidamente. Há também uma espécie de monstro marinho que parece uma baleia que, ao aparecer de tempos em tempos, salva Flow e chega a ajudar o bando de animais quando seu barco encalha.
Não sabemos em que lugar a história se passa, não sabemos onde estão os humanos, ainda que seja evidente que o humano de Flow, sumiu faz pouco. Flow, a gatinha, tem um grande medo, a água e ela precisa não somente sobreviver a ela, mas aprender a tirar dela seu sustento. Na fuga desesperada, ela faz aliados que se tornam amigos. É preciso aprender a tolerar um cachorro emocionado, a entender a simpática e taciturna capivara, a não entrar em conflito com o lêmure. Já ave secretária estabelece um vínculo especial com a protagonista. O pássaro termina expulso do bando por ajudar a felina.
A não ser que tenhamos um zoológico por perto, não estamos na Europa (Letônia). Só que as aves secretárias estão em bando e ele é grande. São pássaros africanos e não são migratórios. E temos bananeiras, também. E um montão de lêmures, que são de Madagascar. Enfim, o lugar não importa muito no filme. Os cenários são muito bonitos e certamente parcialmente inspirados em lugares que existem de fato.
Se tivesse que apontar um problema, achei muito abrupta a descida da água, muito mesmo. Quando começa a enchente, há momentos em que a água sobe mais rápido, ou mais devagar, mas quando ela desce é muito, muito rápido mesmo. Antes do final e da água descer, há um momento meio místico. Não sei se é magia, se são extraterrestres, ou o que seja. Já a baleia tinha muitas nadadeiras e parecia mais um ser de outro mundo. Talvez essa baleia estranha tenha uma ligação com o evento místico que uniu Flow e a ave secretária.
Fora a baleia, todos os animais, que foram animados à mão, são fruto de longas horas estudando a sua versão real e seus sons são de animais reais. Somente a capivara recebeu sons de outro animal, nesse caso, um camelo filhote. Segundo o diretor, o som real da capivara era muito agudo e não combinava com a personagem do filme. E os bichos se comportam mesmo como os verdadeiros, os movimentos do gato são iguais aos dos meus gatos e o cachorro parece com o meu Meteoro, só que mais emocionado que ele, por assim dizer.
O diretor e corroteirista de Flow, Gints Zilbalodis, mantém uma conta no Instagram, em inglês, na qual comenta sobre o filme e sua trajetória. Inclusive, foi o diretor que informou que a gata não tinha nome, mas como todo mundo a estava chamando de Flow, esse acabou sendo o seu nome. E é preciso esclarecer que o filme é uma coprodução com a França e a Bélgica. Mas foi inscrito somente pela Letônia no Oscar, eu imagino, afinal, o filme francês é Emilia Perez. E há uma pequena cena pós-crédito, pequenininha mesmo.
O final do filme é bem "não Disney", talvez melancólico demais, e ao longo de toda a película é evidente a forte influência do material do Estúdio Ghibli, inclusive a sua linda trilha sonora. É um filme barato e que foi muito feliz na sua execução. Melhor que Divertidamente 2, com certeza, e mais corajoso que o belo Robô Selvagem. Estou torcendo por Flow em melhor animação e acredito que ele não é concorrente real em melhor filme estrangeiro, categoria no qual compete com o filme brasileiro Ainda Estou Aqui. Com certeza, Flow é um grande orgulho para a Letônia e um presente para os amantes de gatos. Queria uma estátua do Flow na minha estante, porque a gatinha é muito fofa.